Postado em 05 de Dezembro de 2018 ás 20:53 h
Detentas de presídio no Rio contam rotina de beleza atrás das grades
Foto Rafael Moraes/ Extra Foto: Rafael Moraes / Agência O Globo
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Do Extra  -  Elas seguem um padrão nas roupas, sapatos e nos horários e hábitos. Dentro dos muros do presídio Talavera Bruce, no Complexo Penitenciário de Bangu, todas são detentas, de jeans e camiseta branca. Entre as quatro paredes de suas celas porém, voltam a ser mulheres, cheias de vaidade e cuidados, tentando recomeçar a vida do zero. E fazem do jeito que podem.

Num universo em que boa parte dos produtos femininos, como espelho, alicate e espátula de unha, são proibidos, a solução foi o escambo. Para ficar bonita, troca-se unha pintada por roupa lavada; sobrancelha feita por cela arrumada.

— A gente faz do jeito que dá. Não dá é para ficar sem se cuidar. Temos nossa vaidade e vamos pedindo para as colegas que sabem fazer (unhas, penteado). Cada uma faz o que pode — explica Ana Carolina Rosa, condenada por tráfico de drogas que ganhou, nesta terça-feira, o 10º concurso Garota Talavera Bruce, evento organizado anualmente pela Secretaria estadual de Administração Penitenciária para resgatar a autoestima das presas.

CI Rio de Janeiro RJ 04/11/2014 - Concurso Garota Talavera Bruce 2014. Foto Rafael Moraes/ Extra

CI Rio de Janeiro RJ 04/11/2014 - Concurso Garota Talavera Bruce 2014. Foto Rafael Moraes/ Extra Foto: Rafael Moraes / Agência O Globo

Os alicates foram liberados para algumas detentas que conseguiram a regalia com o título de “manicure” das celas. São elas, que muitas vezes já fizeram cursos e até mesmo trabalharam no ramo, que oferecem os serviços às demais. Para o que — aparentemente — não há jeito, elas improvisam.

— Quando minha mãe vem, ela traz creme de bioextrato para hidratar o cabelo. Se acaba, a gente usa o que tem aqui mesmo — conta Amã Pereira, de 24 anos, condenada a oito anos de prisão por tráfico de drogas.

Nesta hora, vale aveia, azeite, pepino para as olheiras, mel para a pele e os conselhos de quem já vive ali há muito tempo.

No discurso, uma homenagem às mães

Elas já estiveram ligadas ao tráfico, a roubos e sequestros. Hoje pagam, em sua maioria, por se entregarem sem limites àqueles que um dia amaram. Segundo profissionais de presídios femininos, a grande maioria das mulheres que acabam presas cometem os crimes influenciadas por seus namorados ou maridos. A realidade dentro da prisão, porém, muda radicalmente.

— Apenas um por cento dos visitantes de presídios femininos são os companheiros. As mães são verdadeiros cães de guarda dessas mulheres — afirma a diretora do presídio, Andreia Oliveira.

A palavra ‘mãe’, tatuada no braço de Amã Pereira, traduz esta trajetória. Apesar do orgulho em se ver bem vestida e arrumada novamente, após quase dois anos detida, as lágrimas ao fim do concurso, nesta terça-feira, tinham outro motivo, que ia além da vaidade.

— Só me inscrevi no desfile porque era mais uma oportunidade de ver minha mãe. Ela é meu prêmio. E já ganhei ele hoje — contou, sem desgrudar de Eva Pereira por nenhum segundo.

Dona Eva só consegue fazer visitas à filha uma vez por mês. Às vezes, a falta de dinheiro para a passagem de Queimados para Bangu a impede de ir até o encontro. Ontem, foi diferente.

Lições de vida atrás das grades

Para a detenta Livia Baptista, o presídio tem funcionado como uma escola. Condenada por sequestro, ela afirma que não está preparada para deixar o presídio.

CI Rio de Janeiro RJ 04/11/2014 - Concurso Garota Talavera Bruce 2014. Foto Rafael Moraes/ Extra

CI Rio de Janeiro RJ 04/11/2014 - Concurso Garota Talavera Bruce 2014. Foto Rafael Moraes/ Extra Foto: Rafael Moraes / Agência O Globo

- Eu adorei essa experiência (o concurso Garota Talavera). Passei a semana toda nervosa, ensaiando até de madrugada. Na hora que subi na passarela, esqueci de tudo e me soltei. Quando sair daqui, quero tentar ser modelo. E levar minha filha de 8 anos comigo. Eu sei que ainda não estou preparada para sair daqui. Porque não sei o que me espera lá fora. Só Deus sabe o que faz. Ele sabe a hora certa de me tirar daqui. Mas, agora, eu tento aprender todas as lições aqui dentro. Lá fora, vou querer esquecer que um dia passei por aqui. Esquecer tudo isso que aconteceu comigo. A experiência foi boa porque melhorei muito como pessoa aqui dentro. Eu aprendi como em uma escola. Ainda estou aprendendo. Ainda estou no caminho. Por isso, acho que não estou preparada para sair ainda. Estou indo. Não imaginava que podia mudar tanto assim. Hoje estou mais calma, com o coração mais mole, estou tranquila. Eu estou feliz. Aprendi que não vale nem um pouco a pena fazer besteira. A maior verdade é que o crime não compensa.

Por: Nova Cruz Oficial
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